Complexo de Culpa

Raramente ouvimos escutando ou olhamos enxergando, quando se trata daquelas coisas freqüentemente repetidas. Um exemplo disso ocorre nas orações e missas. Repetimos tanto o que lemos que já nem prestamos atenção às palavras.

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Numa noite de domingo, numa missa do Padre Rocha na paróquia de Nossa Senhora da Gloria em BH, escutei algo que me soou dissonante. Há muito tempo ouço essas mesmas dissonâncias incluídas no Ato de Confissão.

As razões dessa inclusão talvez esteja calcada na idéia disseminada de que devemos ter temor a Deus, devemos ter medo de Deus, o que dissemina uma idéia ou “imagem” destorcida e equivocada dEle. O medo de Deus leva a pessoa a sentir culpa quando comete alguma falta. Temor não é respeito nem reconhecimento.

Os clérigos dizem: -“O pecado é uma ofensa a Deus”. Quem somos nós para agredirmos a Deus ou atingi-lo com nossa ignorância? Quando pecamos agredimos a nós mesmos e ao nosso próximo. No Ato de Confissão repetimos as frases: …”que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa.” Essa é a dissonância. A culpa é um sentimento causado pelo comportamento ou ato, sem o propósito de lesar ou prejudicar mas do qual proveio (ou não), dano ou ofensa a outrem; ou, falta voluntária a uma obrigação.

A culpa é um sentimento estéril em termos de produção de mudanças e que nada acrescenta de bom àquele que a sente, imputando-lhe apenas sofrimento. É mais fácil sentir culpa do que ter que se responsabilizar e agir.procurando reparar o prejuízo que possamos ter causado a alguém.

O sentimento de culpa é de tal forma pernicioso que pode impedir aos pais, de exercerem dentro do núcleo familiar a função pai e a função mãe, no processo de educar os filhos. Se omitem e fazem opção por uma educação permissiva, porque não suportam a culpa de terem que punir seus filhos quando estes não respeitam os limites estabelecidos.

Nesses casos, transferem à escola, a tarefa de educar. Mas a função da escola é apenas instruir. Educar os

filhos é uma prerrogativa exclusiva dos pais.

Por essas e outras razões acredito que algum dia, nossos clérigos se ligarão mais a esses pequenos detalhes que fazem grandes diferenças e então rezaremos: “que pequei muitas vezes, por minha responsabilidade”.

Assim, ao invés do sentimento paralisante da culpa que nada nos acrescenta além do sofrimento, poderá brotar em nós, o desejo sincero de reparação e mudança, pela ênfase retirada da culpa e colocada no censo de responsabilidade.

Joel Antunes dos Santos – psicólogo, psicoterapeuta
Pós-graduado em Psicologia Médica pela UFMG

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