Clone

E aquilo que já se desenhava no horizonte da ciência, eis que se faz presente. Se antes o tema em tese suscitava dúvidas e especulações nas autoridades governamentais e religiosas, agora se torna realidade imediata e preocupante. A mídia colocou em evidência a ovelha Dolly clonada e já com sete meses de idade. Para os menos informados, essa palavra nova, era usada para designar, na ficção, um ser vivo originado de uma célula de outro ser.

O animal clonado tem como característica ser uma cópia exatamente igual ao doador celular. Óbvio que já há um ”alarde” em torno do assunto. Fala-se também na produção de insetos, aves e outros animais aos milhões.

A preocupação, logicamente, não está relacionada aos clones insetos ou animais, mas recai sobre os seres humanos. Começamos a imaginar multidões, exércitos constituídos de pessoas exatamente iguais e robotizadas, todas fazendo as mesmas coisas juntas. A clonagem assusta e nos faz vislumbrar populações autômatas, robôs. Só que isso é outra ficção, extremamente remota e praticamente impossível.

O que mais me assusta não é a clonagem. É saber que autoridades civis e religiosas manifestam resistências e posições contrárias a ela e à ciência. Será que esses senhores pensam? Será que não receberam conhecimentos nas áreas da Filosofia, Antropologia, da Psicologia? Somente quem não assimilou e introjetou conceitos relacionados à vida e ao ser humano se apavora e se assusta com os avanços científicos e tecnológicos atuais referentes à clonagem.

Há uma diferença fundamental, crucial e determinante entre homem e animal, que pode clarear, esclarecer, afastar esse medo, que é fruto da ignorância: a diferença preconizada pela mãe de todas as ciências a Filosofia. Foi observado e constatado por cientistas e pesquisadores através dos tempos que os animais irracionais nascem prontos ou geneticamente programados. E os racionais, nós, humanos, só herdamos geneticamente os princípios básicos elementares, biológicos. Uma ave, por exemplo, nascida no verão, cresce rapidamente, sai do ninho e se adapta ao vôo, buscando o próprio alimento e sobrevivência. Na primavera seguinte, essa ave se acasala, constrói o ninho, choca os ovos, alimenta e cuida dos filhotes, fazendo tudo isso sem ter aprendido nem participado de todo esse processo. Todos os animais irracionais repetem os comportamentos próprios de cada espécie, sem a necessidade e sem a possibilidade da aprendizagem, pois eles não abstraem. Todos os animais irracionais se condicionam e/ou são condicionados.

Nós, humanos, nascemos, somos concebidos animais e iniciamos o processo de humanização a partir daí. O homem, para se tornar ser, se humanizar, construindo a sua identidade, precisa do outro, para aprender e se moldar através da convivência. O homem é um ser histórico e constrói a sua identidade e personalidade, na relação com o outro. É o único animal que tem a capacidade de abstrair e, abstraindo, se fazer, interagindo e, obviamente, tornando-se produto do meio. John Loke defendia a tese de que o homem, ao nascer, é comparável a uma “tabula rasa”. Hoje se sabe que o ser humano é comparável a uma “tabula rasa” ao ser concebido.

Homens e mulheres, todos exatamente iguais, tendo sido produzidos todos ao mesmo tempo e já nascidos adultos. Isto é absurdo e impossível. Todo ser vivo, mesmo clonado, obedecerá imperiosamente à seqüência do ciclo do desenvolvimento biológico inerente à espécie humana. O possível clone humano, passando por esse processo, se humanizará fatalmente como qualquer outro ser humano. A possibilidade da transformação desse “clone” em robô é possível, tanto quanto é possível fazer-se isso a um ser humano vindo de uma fecundação, gestação e crescimento naturais.

Mas imaginemos o que a clonagem possibilita de útil para a humanidade: sua aplicação à seleção dos melhores espécimes animais, para obtenção de maior rendimento de produtos animais como carne, leite, ovos a baixos custos; o controle biológico e antipoluente de pragas, etc. A clonagem é apenas um instrumento, que pode ser de extrema utilidade, desde que bem utilizado, como acontece com qualquer outro.

Joel Antunes dos Santos – psicólogo, psicoterapeuta
Pós-graduado em Psicologia Médica pela UFMG

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