A fome mata?

É impressionante como a mídia, as instituições, os políticos e nós, pessoas comuns, exageramos as coisas. Chegamos mesmo a distorcer os fatos, dramatizando tanto, a ponto de fazermos de algo, perfeitamente saudável e natural, verdadeiro terrorismo. Cometem-se tantos equívocos e fala-se cada bobagem! Chegam a dizer que a fome mata uma enorme quantidade de pessoas, tanto no Brasil quanto no mundo. E não ficam só na fala: levantam-se dados estatísticos com números alarmantes; fotografam-se crianças e adultos famintos, pele e ossos, olhos fundos, fisionomias envelhecidas, verdadeiras carcaças ambulantes.

Essa é uma das mais deslavadas mentiras. Nós nos deixamos influenciar tanto pela mídia todo-poderosa e onisciente, que vamos aceitando os paradigmas, as “verdades”, as abordagens unilaterais e diretivas e nem pensamos mais. E, se não pensamos, quando e como questionar? Questionar o quê? Que a fome mata? Mas isso não é público e sabido? Questionar o óbvio?

Apesar desse “óbvio”, precisamos exercitar nosso senso crítico,questionar paradigmas e “verdades absolutas” como essa.

Somos levados a crer que a má distribuição da renda nacional, as políticas neoliberais globalizantes, as elites minoritárias que se perpetuam no poder, distanciadas da realidade, os assaltos aos cofres públicos, os desvios de verbas, a má administração do dinheiro público, nada disso provoca miséria e, se provocasse, não teria tanta importância, pois o que mata é a fome! Sabemos que a soja é o mais rico e completo alimento que há, e que o nosso país é o seu segundo maior exportador mundial, mas é a fome que mata!

Ora, a fome é um recurso orgânico, fisiológico e natural. Não mata – pelo contrário, preserva a vida – é um bem precioso e saudável. Estimula o organismo a buscar os alimentos e obter as energias necessárias para suprir suas necessidades, visando à sua saúde e ao seu equilíbrio orgânico. O que mata não é a fome: é a miséria, a injustiça social, a falta do que comer, a falta do alimento.

Joel Antunes dos Santos – psicólogo, psicoterapeuta
Pós-graduado em Psicologia Médica pela UFMG

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