Homilias de Frei Claudio

Discípulos de Emaus

Como diz São Pedro, na leitura de hoje, todos nós somos peregrinos neste mundo. O porque e para que de tal peregrinação permanece uma pergunta para nós todos. Por que? A razão não vamos saber nunca, a não ser que cada um elabore uma resposta para o seu caso. Tanto melhor, se o fizer a partir da inspiração da fé no Deus inserido na realidade e que, em Cristo, se faz guia nosso na estrada da vida.

Em uma perspectiva global, eu fico um tanto confuso, avaliando a história humana, a história das religiões. É confusão demais. Ou não? Mas quem sabe, no particular de cada um, damos um sentido nobre à vida. Afinal, viver solidário e esperançoso direciona bem nosso ser e agir.

Hoje é Dia das Mães. Eu me fixo em minha mãe. Por que? Casou, não sabia muito das coisas, como nós, agora, sabemos. Em tanto, ela era mais objeto do que sujeito - com todo o respeito. De fato, culturalmente e até em sua experiência pessoal, ela devia estar condicionada demais, na cultura e na religiosidade. Em quinze anos, ela deu à luz – quem sabe, foi coagida – a gerar onze filhos. Era tempo de guerra; imperavam ignorância, pobreza, fome, medo, falta de higiene, frio, solidão...! Por que tudo isso? Depois, ela ficou doente, uns trinta e quatro anos em cadeira de rodas, onze anos cega, e aí, muito limitada, veio a falecer. Na véspera desse grandioso evento, ela observou: “Estou achando que vou morrer”. Uma das minhas irmãs perguntou: “A senhora acha ruim?” Ela: “Não. Está de bom tamanho”. Como se quisesse dizer a nós: “Já passou da hora”. E foi tranqüila. Apagou. Podemos querer saber o “por que?” de tudo isso. Uma caminhada bonita, sofrida, bem sucedida. Isso no casa dela, como que em miniatura.

Agora no global, quanta confusão no mundo. Seis, sete bilhões de pessoas. Cinco que estão na pior. Para que tudo isso? Esta pergunta não tem resposta. Mas, quem sabe? Na dimensão do infinito, tudo isso, aqui entre nós, pode até ter algo de muito sério. Deve servir para algo de bonito. Quero crer, sou forçado a crer nisso. Do contrário, restaria o absurdo, a revolta. O sentido deve ter algo de transcendente. Mas eu não o enxergo. Sou convidado a viver, como todos que nascem de u´a mãe. A vida me é confiada, quase imposta. “Tome para você!” Como lidar com isso é o grande problema. Nossa fé ajuda muito, mas também pode atrapalhar Ou não? Qual o desafio do sofrimento que outros causam a você? É, você vai ter de mostrar paciência e aprender e, com isso, servir a outros. E o sofrimento que você mesmo provoca? Aí, nada feito? Não deve servir para muita coisa não? Sofrimento em si vale algo? O que vale mesmo é alegria, bem-estar. “Quero que tenham vida de boa qualidade”, dizia Jesus. Claro, o que eu faço de negativo, é problema meu, porém influencia, de forma destrutiva, o modo de ser e de agir de outros. Mas, quem sabe... Esses, assumindo construtivamente minhas limitações, também vão despertar, amadurecer.

A partir disso, eu não posso dizer que Jesus morreu na cruz para salvar o mundo. Nisso não hei de acreditar, porque seria projetar em Deus a mesquinhez de nossa vingança. E isso não posso; me recuso. Jesus não precisou morrer na cruz. São João da Cruz disse: “Por um ato de amor nós damos uma ajuda decisiva a todo o cosmos”. Sim, um ato de amor tem o peso do universo. Já imaginaram o amor das mães? O amor de Jesus? O amor de tanta gente sofrida?

Vocês acham que Deus carece de algo negativo, destrutivo para salvar a humanidade? Se Deus é Deus e mora em nós, pela dedicação com o carinho e a ternura das mães, ele deve ficar o tempo todo em êxtase diante de tão nobre amor. O Deus nosso é um Deus “extático”. Sempre em êxtase, pela dedicação das mães. Claro, não se trata só de mãe física. Há muito homem, muita mulher não casada a serviço da vida e da formação humana. A própria natureza é mãe, espetacularmente.

Então, há coisa bonita demais e Deus não precisa de sofrimento. Mas Deus também não coincide com a idéia que, dele, temos na cabeça. Quem sabe, na cabeça de nós todos, dos líderes nas igrejas, o deus a quem nos referimos nem existe. Afinal, tudo indica que Deus é como o ar que nos envolve e que está dentro de nós. Dinamismo que se renova a todo instante dentro de nós. Como sem ar ninguém vive, sem Deus nada somos. Mas Deus ninguém pega, ninguém compra, ninguém subjuga, ninguém ofende, ninguém negocia com ele. Não raro, o que nós fazemos – em nossa relação com o pretenso deus - é ofender a nós mesmos, enquanto não damos espaço para o Deus de Jesus.

Jesus preso, morto, enterrado... Acabou? Acreditamos que, depois, Jesus apareceu fisicamente? Não convém acreditar, uma vez que Deus é sinalizado por toda pessoa que vive neste mundo, porém não se restringe à aparência física de ninguém. Em caso oposto, haveria um deus mágico. Isso não podemos admitir. E se Jesus aparece em um corpo físico, não pode ser o Jesus ressuscitado, mas um Jesus – de antes – só reanimado. Não passaria de um cadáver redivivo. Ora, isso nada tem a ver com ressurreição. Ressurreição é ser libertado de todos os entraves, de todas as limitações, de todos os obstáculos.

Tal Deus sem fronteiras pode irromper dentro de nós como irrompeu dentro das discípulas e dos discípulos de Jesus. Quem sabe, por causa disso, a maioria das pessoas, morrendo, morre em paz. É que, no último momento da vida, mesmo que a pessoa esteja inconsciente, ela toma consciência de que a vida só se pode receber. Ninguém é dono da vida, ninguém pode, definitivamente, segurá-la. Só podemos recebê-la. Tudo indica que toda pessoa tem, no mais íntimo, bom censo e no último momentozinho, é capaz de reconhecer: Está bem. Estou aqui para o que der e vier. E vai em paz. É arrebatada no infinito. Creia quem puder. Tal fé parece mais simples, mais objetiva e mais bonita. Então, a respeito do que lemos e escutamos no Evangelho de hoje – O Encontro de Jesus com os Discípulos de Emaús - vocês me perguntam: “Isto aconteceu do jeito que está escrito?” Tudo indica que não, porém acontece todo o dia. Não acontece como está ali descrito, mas em um sentido simbólico – que, aliás, é o mais real - acontece todo dia. Sim, todo dia há pessoas que perdem alguém, muito amigo, da família, e se fecham num quarto, não querem saber. Todo dia, há tristeza de perda que mergulha pessoas na solidão e no desânimo.

Acontece que a pessoa, em um quarto fechado, fica lembrando o parente, o amigo que perdeu. Vêm-lhe à mente e ao coração palavras e gestos dessa pessoa amada, que já haviam sido esquecidas. Ela já nem os lembrava. E um ardor novo, começa a queimar lá dentro do coração. Quem sabe? O falecido morreu, foi enterrado, mas estou sentindo que está comigo. Aí, chegam alguns familiares e amigos e veem consolar. Uai! Um conta um caso da pessoa falecida, outro lembra uma mensagem sua ou um testemunho de vida, de muito tempo atrás; outros lembram um episódio bonito e, assim, o coração da gente se vai aquecendo...

De repente, o quarto fechado se abre, a janela também; a pessoa sai do quarto e pega a rua, isto é, decide largar a tristeza para trás e reassume a vida. Não acontece? Pois então, o Evangelho quer dizer isso. Só isso e tudo isso: Jesus morreu, mas ele está conosco. E como? Primeiro com os que estavam, unidos, na sala fechada, imersos na tristeza, porém avivando a memória quanto ao falecido; segundo, outros que se puseram a caminho, já querendo retornar à realidade de antes, porém ainda lembrando mensagens e testemunhos do falecido a reanimar seus corações; enfim, ainda nos que, lembrando experiências com o falecido, se reúnem em torno da mesa, celebrando sua memória. Quem assim procede – ensina o Evangelho – pode confiar: Jesus está no meio deles. Todos que, dessas formas, abrem em seu coração um lugar para Jesus, fiquem tranqüilos, confiantes, pois Jesus está com eles. O que a mensagem de hoje quer dizer é isso, tudo isso. E nós somos convidados a celebrá-lo na Eucaristia de hoje.

Frei Claudio van Balen